• Redação GRAPE ESG

Entrevista: Thelma Krug, vice-presidente do IPCC



Por Rhayana Araújo


No ar desde dezembro de 2020, a Plataforma Grape ESG concentra as melhores práticas de sustentabilidade do ESG, na qual empresas, ciência, academia e governo podem estar juntos discutindo de que forma o ESG pode ajudar a sociedade como um todo. Durante este período, a plataforma vem reforçando a importância de as empresas estarem alinhadas à ciência e à sustentabilidade. Para abordar mais profundamente este assunto, conversamos com Thelma Krug, vice-presidente do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) da Organização das Nações Unidas (ONU), e que integra o Conselho Consultivo da Grape ESG.


Thelma fala sobre as mudanças climáticas e os impactos que elas podem causar no planeta, caso não haja uma mudança sem precedentes em todos os setores da economia – principalmente as empresas e indústrias. “O que se espera é que, com o engajamento de todos os setores da economia, todas as áreas da sociedade, se possa fazer a transformação necessária para limitar o aquecimento global e, assim, minimizar ou mesmo evitar riscos aos sistemas humano e natural”, frisa.


Confira a entrevista completa abaixo:


Portal Grape ESG - A plataforma Grape ESG vem mostrando que as empresas devem ter a responsabilidade em alinhar seus negócios com a sustentabilidade e a ciência. Na sua opinião, incorporar este método traz quais impactos positivos para a empresa e para a sociedade em geral?


Thelma Krug - Obviamente que traz impactos positivos! É extremamente pertinente e oportuno trazer à tona e tornar visível a necessidade de alinhamento dos negócios com a sustentabilidade, desde os negócios mais simples até os mais complexos como as indústrias de produção, de bens de capital e de bens de consumo. Em todos os business, há possibilidades de redução de emissões de gases de efeito estufa, incluindo um aumento na taxa de reciclagem de materiais, redução de resíduos e desperdício, desenvolvimento de uma economia circular na indústria, a substituição de materiais em produtos intensivos em carbono por materiais renováveis, como por exemplo, madeira ao invés de aço ou cimento no setor de construção, fibras têxteis naturais ao invés de plásticos. Há também um conjunto amplo de opções para grandes reduções de emissões, incluindo fontes de calor de baixa emissão, eletrificação dos processos de produção. Claro que cada caso é um caso e tem que ser tratado individualmente. É importante entender que o momento atual requer que conceitos, processos e planejamentos sejam revisitados à luz da nova realidade global para combater o aquecimento global e reduzir a ameaça ao desenvolvimento sustentável. Combater a mudança do clima e buscar a sustentabilidade devem caminhar juntas.


Portal Grape ESG - A ciência indica que é possível limitar o aquecimento em níveis que minimizem os riscos dos impactos causados. Quais são as mudanças necessárias que as empresas devem fazer para auxiliar neste processo?


Thelma Krug - No Relatório Especial sobre Aquecimento Global de 1.5oC de 2018, o IPCC indica que é possível limitar o aquecimento global a 1.5oC acima dos níveis pré-industriais até o final do século, mas não sem mudanças sem precedentes em todos os setores da economia que inclui, necessariamente, as empresas e indústrias. Essas transições podem ser possíveis ao se aumentar a capacidade das instituições públicas, privadas e financeiras para acelerar o planejamento e implementação das políticas climáticas, juntamente com uma aceleração da inovação tecnológica, sua implementaçao e manutenção.


Para essas mudanças tornarem-se realidade, existe a necessidade de todas as formas de engajamento – claro que os governos, em todos os níveis, tem grande responsabilidade em buscar alinhar as políticas públicas com a questão climática, mas existe uma grande contribuição do setor privado e das empresas na mitigação da mudança do clima. O Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima - IPCC indica isto no seu último relatório de avaliação de 2014, quando analisa as atividades industriais ao longo de toda a cadeia de suprimento, desde a extração da matéria prima e reciclagem, até a transformação em produto e demanda. Neste relatório, as emissões da indústria são maiores do que as emissões do uso final dos setores transporte e edificações e representam pouco mais de 30% das emissões globais totais de gases de efeito estufa em 2010 e cerca de 40% caso as emissões líquidas de Uso de Terra e Florestas não sejam incluídas no total global. As emissões da indústria estão principalmente relacionadas ao processamento dos materiais que são convertidos em produtos. A produção de ferro e aço e minerais não-metálicos, principalmente cimento, resultam em 44% de todas as emissões de dióxido de carbono da indústria. Outros setores intensivos em emissões incluem os químicos, incluindo plástico, e fertilizantes, papel e polpa, metais não ferrosos, processamento de alimentos e têxteis. Interessante notar que as atividades de mitigação em outros setores, assim como medidas de adaptação, podem resultar em uma maior demanda de produtos industriais e consequentemente, maiores emissões na Indústria. Em 2010, a América Latina contribuiu com aproximadamente 6% das emissões globais diretas de gases de efeito estufa e entre 2005 e 2010, as emissões desses gases cresceu a uma taxa média anual de 2%. Esses dados serão atualizados no próximo relatório de avaliação do IPCC em 2022. Uma redução absoluta nas emissões da Indústria requererá a implementação de um conjunto de opções que vão além de medidas de eficiência energética como, por exemplo, eficiência no uso de materiais, evitando o desperdício, reciclagem, mudanças modais no transporte.


Portal Grape ESG: Quais são os riscos que o planeta corre, a longo prazo, caso as empresas não incorporem a sustentabilidade às suas estratégias?


Thelma Krug - Claro que os riscos são tão maiores quanto maior for o aquecimento global. Mesmo com um aquecimento de 1.5oC acima dos níveis pré-industriais (até 2018, as atividades humanas haviam causado um aquecimento global de aproximadamente 1.0oC acima dos níveis pré-industriais), os modelos climáticos projetam, com alta confiança, extremos de calor na maior parte das regiões habitadas e ocorrências de chuvas intensas em diversas regiões que poderiam certamente impactar os negócios. Eventos climáticos extremos como, por exemplo ondas de calor, chuvas intensas, secas, incêndios florestais, são citados nos relatórios do IPCC como um dos cinco motivos de preocupação e são projetados a se tornar mais intensos e duradouros. Como tal, apresentam riscos/impactos à saúde humana, aos meios de subsistência, bens e ecossistemas. Outro motivo de preocupação está relacionado a eventos singulares em larga escala, que são mudanças relativamente grandes, abruptas e por vezes irreversíveis nos sistemas, causadas pelo aquecimento global. Exemplos incluem a desintegração dos mantos de gelo da Groenlândia e da Antártica.


O que se espera é que com o engajamento de todos os setores da economia, todas as áreas da sociedade, se possa fazer a transformação necessária para limitar o aquecimento global e assim, minimizar ou mesmo evitar riscos aos sistemas humano e natural. A contribuição dos negócios, incluindo principalemente as indústrias, para a mitigação da mudança do clima é significativa, como indicado acima. A intensidade energética de energia do setor poderia ser reduzida em até 25% em relação ao nível de 2010 com a atualização em larga escala, substituição e implantaçãoi das melhores tecnologias disponíveis, particularmente nos países onde isto não vem sendo praticado.


Interview: Thelma Krug, vice president of the IPCC-UN


Since December 2020, Grape ESG Platform has been focusing on ESG's best sustainability practices, a space in which companies, science, academia and government can be together discussing how ESG can help society as a whole. During this period, the platform has reinforced the importance of companies being aligned with science and sustainability. To further address this issue, we spoke with Thelma Krug, vice president of the IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change) of the United Nations (UN), who is a member of the Grape ESG Advisory Council.


Thelma Krug speaks about climate change and the impacts it can cause on the planet, if there is no unprecedented change in all sectors of the economy - mainly companies and industries. "What is expected is that, with the engagement of all sectors of the economy, all areas of society, the necessary transformation can be made to limit global warming and thus minimize or even avoid risks to the human and natural systems", she stresses.


Check out the full interview below:


Portal Grape ESG - The Grape ESG platform has shown that companies should have a responsibility to align their business with sustainability and science. In your opinion, incorporating this method has what positive impacts for the company and society in general?


Thelma Krug - Obviously, it has positive impacts. It is extremely pertinent and opportune to bring those out and communicate the need to align business with sustainability, from the simplest businesses to the most complex ones, such as the production, capital goods and consumer goods industries. In all businesses, it is possible to reduce greenhouse gas emissions, including by increasing the rate of recycling of materials, reduction of waste and waste, development of a circular economy in the industry, replacing materials into carbon-intensive products, renewable materials, such as wood instead of steel or cement in the construction sector, natural textile fibers instead of plastics. There are also a wide range of options for major emission reductions, including low emission heat sources, electrification of production processes. Of course, each case is different and has to be dealt with individually. It is important to understand that the current situation requires that concepts, processes and plans be revisited in the light of the new global reality to combat global warming and reduce the threat to sustainable development. Combating climate change and seeking sustainability must go together.


Portal Grape ESG - Science indicates that it is possible to limit heating to levels that minimize the risks of the impacts caused. What are the necessary changes that companies must make to assist in this process?


Thelma Krug - The 2018 IPCC Special Report on Global Warming of 1.5C indicates that it is possible to limit global warming to 1.5C above pre-industrial levels by the end of the century, but not without unprecedented changes in all sectors of the economy that necessarily includes companies and industries. These transitions may be possible by increasing the capacity of public, private and financial institutions to accelerate the planning and implementation of climate policies, together with an acceleration of technological innovation, its implementation and maintenance.


For these changes to become a reality, we need all forms of engagement - of course, governments at all levels have great responsibility to align public policies with the climate issue. But there is a great contribution to be made from the private sector, companies to mitigate climate change. The Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) indicates this in its 2014 assessment report of 2014, when it analyzed industrial activities along the entire supply chain, from raw material extraction and recycling, to transformation into product and demand . In this report, emissions from industry are greater than emissions from the end use of the transport and buildings sectors and represent just over 30% of total global emissions of greenhouse gases in 2010 - about 40% if net emissions from Land-Use and Forests are not included in the global total. Industry emissions are mainly related to the processing of materials that are converted into products. The production of iron and steel and non-metallic minerals, mainly cement, results in 44% of all industry's carbon dioxide emissions. Other emissions-intensive sectors include chemicals, including plastic, and fertilizers, paper and pulp, non-ferrous metals, food processing and textiles. It is interesting to note that mitigation activities in other sectors, as well as adaptation measures, can result in greater demand for industrial products and, consequently, higher emissions in Industry. In 2010, Latin America contributed approximately 6% of global direct emissions of greenhouse gases and between 2005 and 2010, emissions of these gases increased at an average annual rate of 2%. These data will be updated in the next IPCC assessment report in 2022. An absolute reduction in Industry emissions will require the implementation of a set of options that go beyond energy efficiency measures, such as efficiency in the use of materials, avoiding the waste, recycling, modal changes in transportation.


Portal Grape ESG: What are the risks for the planet in the long run, if companies do not incorporate sustainability into their strategies?


Thelma Krug - The greater our global warming, the greater the risks will be. Even with a warming of 1.5C above pre-industrial levels (until 2018, human activities had caused a global warming of approximately 1.0C above pre-industrial levels), climate models project, with high confidence, extremes of heat in the most inhabited regions with intense rain occurrences in several regions that could certainly impact businesses. Extreme weather events, such as heat waves, heavy rains, droughts, forest fires, are cited in the IPCC reports as the five reasons for concern and are projected to become more intense and long lasting. As such, they present risks, impacts to human health, livelihoods, assets and ecosystems. Another cause for concern is related to singular large-scale events, which are relatively large, abrupt and sometimes irreversible changes in systems, caused by global warming. Examples include the disintegration of the Greenland and Antarctic ice sheets.


What is expected is that with the engagement of all sectors of the economy, all areas of society, the necessary transformation can be made to limit global warming and thus minimize or even avoid risks to the human and natural systems. The contribution of business, including mainly industries, to mitigating climate change is significant, as indicated above. The intensity of energy use in the sector could be reduced by up to 25% compared to the level of 2010 with the large-scale updating, replacement and implementation of the best available technologies, particularly in countries where this has not been practiced.



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